quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Confessar

Tinha descido à portaria, celular no bolso e uma ideia na cabeça, dessas ideias malucas que nascem de um sem par de pensamentos que caem em sequência feito dominó. Carregava nas mãos um protótipo de caderno amarelado, amassado, roto. Muitas vezes tinha recorrido àquele caderno, dando vazão ao desejo inexpugnável de expressar todos os impropérios que lhe vinham à mente. E todas as declarações que eram freadas e se perdiam no limbo entre o abrir a boca e formar o som.
Na portaria, deu boa noite ao porteiro, "Vi você no hospital hoje cedo, minha mulher teve um filho. É uma loira, vai pra casa amanhã", que surpresa (e obviamente teria esquecido essa informação quando o dia amanhecesse). Saiu para a calçada, pedra portuguesa. Caminhou até a estação, passou o cartão, sem crédito, recarga, perdeu o trem, passou o cartão, esperou infinitos 6 minutos. Pegou o trem. Ficou olhando pela janela, vendo um rapazinho que chegou tarde e ficou louvando o condutor. Observou-o até que não pudesse mais ver a plataforma e restasse apenas seu reflexo. Àquela hora estaria só, não fosse uma senhorinha tricotando a 4 cadeiras de distância. O barulho dos trilhos embalou o sono, atrasado há semanas, e quando deu por si já estava na última estação. Sem problemas, apenas 40 minutos de caminhada no escuro. Nem aventou a possibilidade de um assalto, nada tinha que pudessem querer roubar, o celular era velho, um daqueles ultrapassados há anos.
Percorreu o caminho em 25 minutos, ora, mas que pressa! E não soube explicar. Muitas coisas havia, naqueles dias sombrios, que lhe fugiam à razão. Hesitando, encarou o prédio de muitos andares e pensou em como seria mais simples se pudesse voar. Na ausência dessa possibilidade, tocou o interfone. "Pois não?" E nada disse, mais uma pro limbo. Tocou para a portaria, "Por favor, para o..." putz, não sabia o número. Poderia ligar, mas não conseguiria dizer palavra. Sms, e-mail, todas essas ferramentas já tão habituais, nenhuma delas lhe convinha. Que merda, praguejou. Se corresse, ainda pegava o metrô. Correr não queria, nem mesmo andar, e por falta de opção sentou no ponto de ônibus que era o abrigo mais próximo. Abriu o caderno e releu a última anotação.

"Sou dessas pessoas que começam textos com verbos, mas não verbo 'ser', conjugado no pretérito imperfeito, associado a 'uma vez', que esse é o início de contos de fada e os meus são contos de gente. Contos também não são, verdade seja dita, quando muito ideias rabiscadas em papel. Veja bem, economia também não serve pra mim, minha lixeira cheia de bolinhas amassadas é testemunha disso. Só o que domino bem é a arte da prolixidade, de falar em voltas como se fosse engrenagem. Um coisa puxa a outra, acontece.
E aconteceu que tive vontade de te escrever. De dizer que na verdade não digo porque não tenho voz forte, não tenho voz firme e posso chorar. Eu sei que também choro quando escrevo, aposto que estavas esperando ansiosamente pra usar esse argumento. É por isso que não escrevo na tua frente, nem gosto de saber que lês o que eu escrevo, embora este texto tenha sido feito para os teus olhos.
Ah, sim, teus olhos...Acho que foi pensando neles que comecei a escrever. Sim, pra dizer-te, ou qualquer coisa que o valha, que esses teus olhos me tiram do sério. Teu olhar submisso quando olha pra mim, como se eu não fosse tão mortal. Nunca sei o que se esconde por trás desse olhar, preciso que me diga, que repita constantemente pra me convencer.
Faz pouco mais de 2 horas que nos falamos. Não agora, quando estiver lendo, na hora que comecei essa loucura, essa insanidade-caneta-papel que me consumiu preciosos minutos que eu não poderia perder. Estou sempre no limite, e nós rimos tantas vezes disso. Mas voltando ao desabafo, nessas horas de distância é quando mais te quero. Precisava te dizer, por mais frio e malvado que isso pareça, que te adoro mais quando nos despedimos, porque saber que ficaremos distantes me faz te desejar mais perto. Me faz pensar em como é bom sentir o teu corpo, rir mentalmente da tua mudança no tom de voz toda vez que quer dizer alguma coisa importante (acho que nem percebes que isso acontece. Eu percebo. Sempre.), e me aninhar no teu colo como se fosse o lugar mais seguro do mundo. Não é, eu sei. Nós sabemos que não. Segurança não há e ainda assim estamos vivendo, não é? Lembro de ter te perguntado mais de uma vez que diabos estávamos fazendo e tu não tinhas a menor ideia, então nos calamos.
Não posso deixar de mencionar, a propósito, nossos silêncios. Deus, como adoro nossos silêncios. E quando estamos longe, eles me fazem desejar os teus olhos, e teus olhos me levam a todo o resto mas é sempre por eles que começo. Fico pensando, nessa cadeira desconfortável, em como é gostosa a sensação de te olhar e esperar por aquelas palavras que simplesmente não vêm, nem de mim nem de ti, sabe Deus porque.
Ficamos quietos, nos olhamos, rimos eventualmente. E quando tenho que ir, peço que me peças pra ficar, que sussurres no meu ouvido, me abrace, me convide pra subir, tente me convencer, só pra eu poder te dissuadir e te chamar à realidade e, finalmente, te deixar, sem olhar pra trás, pra que não vejas o sorriso bobo que aparece de imediato. E eu fico esperando tua ligação, teu sms. Nem sempre eles vêm. Os meus pra ti também não, porque eu me contenho, confesso. Não tenho créditos.
Não vou reler este texto porque eu escrevi pra ti e eu sei que relendo provavelmente vou censurá-lo e teus olhos jamais tomarão conhecimento dos meus pronomes mal colocados, verbos mal conjugados e maluquices gramaticais. Vou considerá-lo pronto no momento em que resumir o objetivo, porque no meio de tanta bobagem, ele deve ter se perdido. Te quero, mais quando longe por querer estar perto. Te espero, todos os dias, do momento em que acordo até o último suspiro consciente. E te proponho agora que termines este caderno; depois devolva na minha portaria, embalado em papel pardo e barbante.
Carinhosamente, ..."

De fato, não devia ter relido. Fechou o caderno e gritou para o escuro. Quanta burrice. Sorte ou azar, passou um ônibus cujo destino final era sua rua. Fez sinal, subiu, entregou ao trocador 3 moedas de 1 real, sentou no banco alto e deixou-se levar de volta, testa no vidro frio, repetindo mentalmente os acordes de November Rain.