sábado, 19 de novembro de 2011

Havia vezes em que ficava sem assunto, pegava uma caneta, rabiscava um arabesco. Guardava notinhas de supermercado, planejando fazer a contabilidade do mês, controlar os gastos, embora soubesse que aquele descontrole era algo inerente seu. Era de sentir arrepios em horas impróprias, por motivos estranhos ou ventos encanados. Costumava pensar na morte. Do amor, das utopias, da bezerra. Lembrava de mandar uma carta-do-leitor toda vez que abria o jornal pra ler notícias de um país imundo, corrupto, mas esmorecia (talvez pensando no encanto que tamanha selva de gente também podia reservar).
Tinha medo do tédio. Do comum. E mesmo assim caiu de amores como um clichê. Apaixonadamente ébrio, nas esquinas mal iluminadas de um bairro cosmopolita. Encheu-se de vodka e whisky sem sucesso. Não entendeu. Indignou-se, ameaçou, fugiu. Subiu a serra. Nada. Ainda queria ela. A única.
Pegou diversas vezes os papéis, escreveu, ouviu Vinícius e Bob Dylan, bebeu de novo, perdeu os sentidos. E acordou súbito em sua cama, olhando a janela de cabeça pra baixo, mais perdido que antes. Tinha passado a desejá-la todos os dias, acordar ao seu lado, aquecer-se em seu corpo. E apesar desse novo desejo, tão fundamental como comer ou dormir, constatou o óbvio e deu por si sozinho. Nunca a convidara pra entrar, nem mesmo quando quis fazê-lo e, dessa forma, ela permanecia do lado de fora, por mais presente que fosse em seu subconsciente.