Havia meses refaziam os cálculos, recalibravam as engrenagens. “Tem que dar certo dessa vez“, pensou. À hora marcada, 4:20 no antigo relógio de pulso, deram o aviso sonoro. As luzes foram apagadas. Todas as energias estavam concentradas naquela pequena salinha verde, terceira porta à esquerda no corredor sem saída. O ponteiro dos segundos parou. “Por favor...“. No segundo que não correu, o mesmo ponteiro deu um meio giro. Para trás. E de novo. Outra vez. Várias voltas e os outros ponteiros acompanharam-no. De novo, de novo, girando ao revés num descompasso frenético, inúmeras voltas, girando, girando, seus olhos não podiam acompanhar tamanha velocidade. Perdeu a consciência.
Quando acordou, estava num descampado, o sol se punha e o relógio marcava 7:20. 28 de janeiro. 2011. Funcionou. Sabendo o que estava para acontecer, escondeu-se na descida que dava para o tanque, atrás do estábulo onde o potro chocolate ficava esperando pela ração. “Ele come na sua mão, se você tiver coragem“. Sabia que não tinha. Ouviu vozes conhecidas, risadas, e admirou o quadro daquela tarde, espectadora de si mesma. Os dois juntos, na grama. A oferta, a recusa, os olhares de compreensão. O desejo ainda latente. “Se eu pudesse fazer diferente, tinha aceitado?“ Antes que chegasse a uma conclusão, a cena começou se mexer de forma estranha, uma aquarela que depois evaporava e condensava ao mesmo tempo, formando um turbilhão de fumaça colorida com cheiro adocicado de chá de casca de árvore. Um lapso, uma crise de ausência.
Novamente estava na sala verde, sem saber se tinha imaginado ou vivido, sentada no mesmo lugar, numa redoma de energia e partículas. Olhou em volta deslumbrada. Incapaz de encontrar a resposta definitiva, deixou o isolamento e foi buscar apoio nos olhar da sua equipe técnica, homens e mulheres cheios de sonhos. Faces incrédulas a encaravam. Era tudo que precisava.
O ano era 2040 e ela tinha viajado no tempo.