sábado, 14 de janeiro de 2012

Só um chopp

Sem planos, pensou. E saiu, crendo que ambos tinham o mesmo simples objetivo de olharem-se nos olhos e discutirem as razões do firmamento. Explicações não tinham, nem sentido, dois ébrios mortais, dissertando sobre o desconhecido. Perderam-se nos argumentos, na prosa lírica, na música alta, no escuro do apartamento, nono andar, bloco da direita. Encontraram-se na vontade de partilhar o pôr do sol, o nascer da lua e as matizes do horizonte quando tem sua atmosfera invadida pelos raios universais.
Deu por si séculos depois, na solidão de um ônibus rodoviário.  Enquanto trocava os acidentes geográficos, viu surgir o desejo de estar sob o olhar protetor, admirado. De sentir a ferrugem dos fios revoltos entre os dedos, do beijo sabor hemoglobina. Vontade de ouvir atentamente filosofia, metafísica e até declarações de um amor que duraria a eternidade de um ciclo cardíaco. Era uma criança curiosa, sendo apresentada a todos os assuntos sobre os quais queria aprender. Queria partilhar o conhecimento literário, sentir-se parte do seu pensamento antropológico, sociológico, idealista.
Já em outra BR, a do litoral devorado pelo mar, caminhou pela estradinha de recife entre as casuarinas, tendo o vento nordeste como única companhia. Lembrou da avó, dos joelhos ralados naquelas pedras na infância, das noites de lua. Era uma terra de saudade, afinal. Mas o paraíso não era capaz de preencher o vazio do abraço, laço físico da alma. E, agora, sair sem planos não parecia suficiente porque sabia que não se encontrariam. Não ali, onde aquela ausência era mais uma entre todas as saudades que sentia.