Amor,
desculpe o atraso. Parei para ver o mar, não se zangue. Sei que sacrifica seu tempo para estar comigo, por isso peço desculpas. De mim não sei, talvez o feitiço pelo qual me mantém ainda não seja páreo para o mar. É que o vai e vem das ondas me seduz, me dá uma paz que não consigo descrever. Senti o cheiro do mar e atendi seu apelo, caminhei pelas ruas apinhadas de gente, apenas para olhá-lo, render-me ao seu som, sua canção. O céu mudava de cor, vermelho, laranja, amarelo, azul. Pensei em você. Quis até te trazer para perto, sumir contigo nas ondas, sendo só nós dentro do imenso, e esses abraços e beijos sem fim. Mas minha mente voltou ao mar e lá permaneceu por infinitos minutos.
Senti um arrepio quando lembrei do último mergulho que dei, ainda ano passado. Envolta na água salgada é quando me sinto mais livre, e mais conectada com esse fluxo caótico que nos rodeia, por estranho que isso pareça. Tenho certeza da minha insignificância e isso me dá forças pra seguir em frente, manter os pés firmes no mundo e evitar um caldo vergonhoso na próxima onda que quebra. Quantos caldos já. Imaginei sua risada me vendo tomar um. Lembrei então de ir embora, nosso encontro já pela hora da morte.
Por um momento, pensar em você fez o mar, que sempre me preencheu, parecer incompleto, quase infeliz. De qualquer forma, foi difícil deixá-lo, me levando à conclusão de que não sou boa para despedidas, assim como não presto no português e em tantos outros pormenores. Cada metro cúbico daquelas águas revoltas era um pedido, um suspiro dizendo "fica", como tantas vezes você mesmo fez no meu ouvido. No entanto, fiz como faço contigo, virei as costas e caminhei, sem um olhar de relance sequer, para que não mudasse de ideia e me atirasse vestido-all-star-telefone no meu amante mais querido.
Adieux
Discret,
je m'éloigne avec un sourire en coin,
j'avance calmement pour qu'elle ne le remarque pas
je marche en silence
pour ne laisser que le souvenir,
j'y vais à pas légers,
j'aperçois la maison où j'irai me changer,
je la respire une dernière fois
et pous je pars avec les vagues qui me font la cour...
...comme il est difficile de dire adieu à la mer!
(Jean-Luc Pouliquen)
