quarta-feira, 16 de abril de 2014

60h depois

O grito quebrou a tarde com incredulidade. Tem certeza? Parecia uma brincadeira de mau gosto. Ele explodiu em raiva e fez voar pelos ares os móveis. Chorei impotente. Quis pegá-la e pedir perdão pela ausência e até pelo ciúme infantil de quando a via ser paparicada, centro das atenções. Senti culpa. Por tê-las deixado, por não ter valorizado a queixa de manhã. Embora tenha se tornado um hábito estar longe, vi esmorecer a festa de boas vindas na chegada periódica, o latido rouco, a alegria babada.. Pensei em quando lhe dávamos apelidos, levávamos à praia, com esforço porque sempre foi preguiça e gostava de sentar no caminho, meio palmo de língua pra fora, fazendo birra. Perdeu-se com a idade o vigor, o ânimo de subir as escadas atrás do pão e do afago à noite... E pareceu natural, inevitável. Mas ali, àquela hora da tarde, só nós em casa, foi injusto, imprevisto, barulhento. Ele saiu para levá-la como fizera o pai meses antes com o outro cão. Conhecer o caminho não o fez mais forte. Talvez mais resignado, apenas. Quis acompanhá-lo e recebi ordem de ficar. No andar de cima, nossa outra alminha chorava; fui ao seu encontro. Ou ela veio, nariz gelado, choramingo e lambidas, entre pedir abrigo e oferecer carinho. Agarrei-me a ela como se pudesse salvá-la do tempo. Irmão voltou depois e ficamos os três, escantilhados na sala, deixando rolar nosso pesar.
O pranto secou. O desespero passou. Ficou a lembrança, a casinha vazia sob a escada.