segunda-feira, 26 de março de 2012

O texto não escrito

Abri a agenda cheia de metas não cumpridas e tarefas adiadas. Comecei a me perguntar até quando pretendia enrolar e deixar pra depois todas os assuntos inacabados, essas maturidades (in)adquiridas. Achei uma foto, um fim de tarde. Uma paz tão grande sob a luz do sol, outono no quintal. Sim, meu quintal, aquele murinho dividindo a calçada e o mar. Desisti daquela leitura chata e fui admirá-la, a foto, só um segundo, prometi. Nunca fui boa de promessas...

Senti saudade como se tivesse sido há muito tempo, toda uma eternidade de poucos dias passados, soterrados por uma tonelada de atividades acadêmicas e responsabilidades rotineiras. Seu sorriso escondido, aquele discreto que você dá quando está pensando. Adoro vê-lo pensar, refletir sobre as coisas que você quer tanto entender, mas que duvida das próprias razões que encontra. Você se encanta com tanta facilidade, será que percebe isso? Lembro-me que nesse dia, olhar o seu sorriso me deu vontade de escrever - como milhares de vezes antes. Você me dá vontade de poesia, Neruda, sinceridade, sonetos. Não tenho talento, eu sei, e naquele momento não tinha nem caneta, nem papel. Essas tecnologias de hoje me ofereceram a oportunidade de pegar o celular e usar um editor de textos html qualquer. Mas com você eu prefiro as coisas físicas ou memoráveis. Continuei olhando seu sorriso e registrei numa fotografia indiscreta a tranquilidade que emanava no vento. Ah, esse vento do meu quintal...

Tentei a todo custo lembrar o que queria escrever naquela hora, acho que o cansaço mental está me alcançando, minhas engrenagens se enferrujam. Fico um pouco irritada por ser assim, tão fugidia. Embora, pensando bem, esta seja uma característica dos meus - não - textos pra você, um romance de imagens e silêncios. Deixo o registro pra depois, preterindo as palavras em favor da vista, e sempre acabo por me perder na lembrança, só percebo que nada anotei tanto tempo passado. Várias vezes... Decido colocar a culpa na minha incapacidade conclusiva, sim, única explicação. Não sou nem mesmo capaz de concluir um único segundo, transformei-o em três horas, e agora pago na insônia o preço das leituras adiadas.